A LOUD foi a primeira organização de esports a chegar a um bilhão de visualizações no YouTube, além disso, sua abordagem em aquisição de talentos e criação de conteúdo está a tornando uma líder no mercado. Nós conversamos com o CEO e fundador da LOUD, Bruno “Playhard” Bittencourt, sobre sua ascensão meteórica.

Tradução: Igor Oliveira

Se você perguntasse a um fã de esports comum qual organização possui o maior canal no YouTube, muitos poderiam dizer 100 Thieves ou FaZe Clan, mas eles estariam errados. Na verdade, a organização brasileira LOUD esmagou todos os recordes. LOUD foi a primeira organização de esports a chegar a 1 bilhão de visualizações no YouTube e agora está próxima de alcançar os 2 bilhões. Os números são ainda mais impactantes se você considerar que a LOUD lançou seu canal apenas em 2019 e atualmente possui 11.6 milhões de inscritos. Sua presença em outras redes sociais são igualmente impressionantes: 10 milhões de seguidores no instagram e quase 1 milhão de seguidores no Twitter; e crescendo.

Então, o que é LOUD? LOUD é uma companhia de esports e estilos de vida fundada em 2019. Percebendo o potencial imenso para os esports mobile no Brasil – especialmente com a ascensão de Free Fire na época – Bruno Bittencourt e o co-fundador da LOUD, Jean Ortega, criaram a organização, que tinha a produção de conteúdo como prioridade em seu início.

De acordo com o site Datareportal, em janeiro de 2021, o número de usuários de redes sociais no Brasil era equivalente a 70.3% da população total, uma das porcentagens mais altas mundo afora. Como resultado, os brasileiros são grandes consumidores de conteúdo digital, principalmente por meio de dispositivos móveis. Com os jogos mobile sendo muito mais acessíveis do que os jogos para PC no Brasil, a LOUD conseguiu trazer um conteúdo rico em engajamento para uma audiência vasta. Para apoiar o seu objetivo em conteúdo, a LOUD recrutou jovens talentos “com a missão de evoluir talentos competitivos para celebridades digitais”.

Nós conversamos com o CEO e fundador da LOUD, Bruno Bittencourt, sobre os detalhes do seu modelo de negócios e como isso revolucionou o espaço dos esports. A abordagem de sucesso da LOUD em criar talentos ao invés de comprá-los começou a fazer inveja em outras organizações de ponta, que agora buscam as estrelas de amanhã.

Bruno “Playhard” Bittencourt (frente) construiu um império focado em talentos locais e jogos mobile.

Malystryx: A LOUD usa um modelo de negócio diferente de outras organizações de estilo de vida baseado em esports, como por exemplo a  FaZe Clan e 100 thieves, mesmo sendo comparada com elas. Você escolheu a dedo talentos escondidos e os tornou estrelas. Quase todos os seus talentos seguiram esse caminho, era esse o plano desde o início da LOUD, ou foi baseado no sucesso de pessoas como o Thaiga que você percebeu o poder desse tipo de modelo de negócio?

Bruno “Playhard” Bittencourt: Desde o primeiro dia, nosso modelo de negócio foi construído a partir das dificuldades que os nossos três fundadores viveram durante os seus trabalhos anteriores como desenvolvedores de games, editores, em agências e como criadores de conteúdo. Foi crucial para nós descobrir melhores formas de dimensionar e agilizar o processo do criador de conteúdo, permitindo que os talentos focassem no que eles faziam de melhor, enquanto fazíamos uma ponte entre seus negócios e as necessidades do mercado. Para fazer isso, nós tivemos que descobrir uma forma sustentável de tornar essa situação vantajosa para todas as partes e não enxergamos nenhum valor agregado em liberar grandes talentos para podermos monetizar. Nós sabíamos que não compensaria do ponto de vista dos anunciantes e forçaria nossa marca a se tornar uma “vendida”, o que é contraproducente para os nossos objetivos de construir a maior comunidade gamer possível. O verdadeiro valor da LOUD é o nosso comprometimento em trabalhar com os talentos desde um estágio prematuro, para podermos fornecer a base correta na qual eles podem construir suas carreiras e depois seus próprios negócios.

Malystryx: Você se tornou um dos pioneiros no cenário e muitas organizações estão procurando replicar o que você está fazendo. Entretanto, ser capaz de achar talentos e prever com sucesso o seu potencial não é uma habilidade fácil de se copiar. A taxa de sucesso da LOUD, ainda assim, é incrivelmente alta. Quais são as características ou traços de personalidade que você procura em um talento em potencial? Como alguém chama a atenção da LOUD?

Bruno “Playhard” Bittencourt: A competição sempre vai ser acirrada e é assim que as indústrias são. Estamos conscientes de não nos distrairmos pela competição durante nossa busca e, ao invés disso, buscamos inovar, pois percebemos que a imitação apenas dilui um lucro de uma indústria e evita que um ecossistema evolua. Nós temos um norte e pelos próximos anos seremos obsessivos nestes objetivos – enquanto estamos pavimentando nosso caminho, não importa o que os nossos concorrentes fazem. Quanto a olhar características e traços de personalidade, é algo que vamos evoluindo desde que começamos.

“Sem o critério correto, nós estaríamos criando talentos que estão suscetíveis à serem levados por ganância, e é crucial que nós invistamos em perspectivas de longo prazo desde o início.”

BRUNO “PLAYHARD” BITTENCOURT, CEO E FUNDADOR DA LOUD

Em adição ao talento natural e boa personalidade, nós garantimos que ter a mentalidade certa afeta muito a cultura dentro da nossa companhia. Sem o critério correto, nós estaríamos criando talentos que estão suscetíveis à serem levados por ganância, e é crucial que nós invistamos em perspectivas de longo prazo desde o início. Queremos ser capazes de construir grandes negócios em torno da nossa marca e de cada talento individual e isso requer uma mentalidade firme que consiga enxergar retornos a longo prazo.

Malystryx: Normalmente, quando organizações de esports chegam a um determinado tamanho, ao invés de aumentar seus talentos, elas simplesmente compram talentos já formados para retornos mais rápidos. Entretanto, a LOUD ainda não está fazendo isso, apesar de estar chegando a quase 2 bilhões de visualizações no YouTube, um feito que nem organizações que possuem canais a uma década chegaram perto.

Refletindo, eu estava pensando que uma das razões para isso poderia ser o fato de que os fãs criam um laço mais forte com um talento se eles o acompanham desde o início de sua ascensão, um laço que não pode ser “comprado” ao trazer um talento experiente. Outra razão que considerei é a de que isso permite que a LOUD fique em contato com suas raízes de ser acessível a todos, que talvez, culturalmente, comprar o produto final possa afastar alguns fãs que apreciam o crescimento do seu talento. Então eu estava bastante interessado em ouvir seus pensamentos. Por que você manteve as raízes do seu modo de abordagem e recrutamento ao invés de comprar talentos? Outras organizações deveriam seguir seus passos?

Bruno “Playhard” Bittencourt: Um talento que pode ser comprado será comprado ou abordado de novo no futuro, e o nosso modelo de negócios é não ser fundamentalmente uma agência, mesmo que ofereçamos serviços parecidos com o de agenciamento. Nós queremos criar e desenvolver PIs que possamos investir a longo prazo, porque quem quer investir em algo que pode mudar e perder valor pouco tempo depois?

No entanto, não conseguimos nos defender de todas as investidas, uma vez que o dinheiro fala alto, mas preferimos focar no valor agregado e na habilidade de incubar novos talentos e desenvolver suas PIs. Outra parte disso diz respeito aos nossos aprendizados em torno dos negócios de criadores e um motivo pelo qual nós optamos em construir sempre do zero, uma vez que vários criadores existentes construíram seus negócios de acordo com várias áreas, desde estratégia de conteúdo até produção, são muitas variáveis que nós teríamos que ajustar para chegar a uma escala. Isso se torna incrivelmente difícil, uma vez que criadores de grande sucesso já desenvolveram e estabeleceram sua própria infraestrutura e hesitam em arriscar isso.

LOUD sediou recentemente a Leleo Cup, focada em seu jogador de Fortnite Leleo (meio), que competiu na Copa do Mundo de Fortnite em 2019

Existem várias organizações de sucesso por aí que geram grande crescimento para seus talentos, para aquelas que ainda estão achando seu próprio passo, minha sugestão seria focar primeiro na comunidade – não importa quantos campeonatos você vença, se você não tem a comunidade, você não tem nada. Não é surpresa que, nos últimos dois anos de existência da LOUD, nós tenhamos feito mais conteúdo que qualquer outro time no mundo e em qualquer plataforma disponível.

“Não importa quantos campeonatos você vença, se você não tem a comunidade, você não tem nada.”

Bruno “PLAYHARD” BITTENCOURT, CEO E FUNDADOR DA LOUD

Malystryx: Você disse publicamente no passado que a decisão da LOUD de se lançar no Brasil foi uma escolha natural por conta dos parceiros existentes e da base de seguidores. Você também disse que o Brasil se destaca por ser um grande consumidor de conteúdo digital e por ter um potencial incrível para games mobile – o que nós vimos com Free Fire. Você acha que o sucesso incrível que a LOUD vem tendo pode ser replicado em algum outro país ou continente por vocês mesmos com o conhecimento que vocês têm agora? Ou o sucesso da LOUD tem muito a ver com o país em que vocês escolheram para se lançar?

Bruno “Playhard” Bittencourt: Nossa experiência mostra que mercados emergentes requerem muita infraestrutura para dar suporte aos gamers, e foi atendendo aos chamados de gamers em países como o Brasil que fez com que meus co-fundadores procurassem o país em primeiro lugar. O Free Fire da Garena tinha um grande entendimento dessas necessidades e sua estratégia provou ser bem-sucedida. Existem gamers em todos os lugares e de todos os tipos, todo jogo tem uma comunidade diferente e é realmente entendendo a economia destes mercados que alguém pode ter sucesso. Como uma companhia, nós somos de fato ambiciosos, nossa aposta é que a indústria dos jogos só vai continuar a crescer e que todos vão se tornar criadores à medida que nós seguimos para uma sociedade digital. Nosso foco continuará em mercados emergentes e, embora não possamos revelar muito, esperamos poder nos posicionar nas maiores plataformas de jogos dentro desses mercados.

LOUD é formada por um misto de criadores de conteúdo e jogadores que competem em Free Fire, Fortnite e League of Legends

Malystryx: Quanto tempo até a FaZe Clan ser chamada de LOUD americana? Ou isso já deveria ter acontecido?

Bruno “Playhard” Bittencourt: A FaZe Clan construiu sua comunidade por mais de uma década e tem cultivado uma das comunidades mais engajadas no oeste. Nós não vemos a FaZe como competidores, mas sim como criadores de tendências. Examinamos tanto suas vitórias e aprendizados para entender melhor as coisas que podem ou não funcionar para nós. Outros times que temos um respeito gigante são o pessoal da Team Liquid e NRG, todas essas organizações que continuam a inovar e quebrar as barreiras da indústria gamer, de esports e de lifestyle e se tornaram uma inspiração para quase todos.

Malystryx: Eu percebi que vocês têm um videoclipe musical com mais de 40 milhões de visualizações. Nós vimos bandas que fazem músicas para eventos, como por exemplo Imagine Dragons – Warriors for League of Legends Worlds, mas eu não consigo pensar em outra organização contratando talentos musicais locais para promover sua marca. Eu também já ouvi que vocês estão trabalhando para criar uma gravadora da qual seus talentos poderão fazer parte. Faz total sentido pensar sobre isso, mas por que ninguém nunca pensou em fazer isso antes? Você poderia nos dizer o que mais a LOUD tem planejado em termos de música?

Bruno “Playhard” Bittencourt: Nossa abordagem à música e à incubação de talentos segue uma metodologia similar a como lançamos talentos gamers. Por ser uma indústria totalmente separada, nossas músicas até então são somente R&D, e estamos descobrindo qual estratégia faz mais sentido para lançar artistas musicais, para que eles não sejam apenas uma parte da marca LOUD, mas para que possam crescer e ter sucesso com seus próprios direitos como artistas. Assim que isso acontecer, uma gravadora fará mais sentido, mas por enquanto estamos procurando os pontos de dificuldade da indústria para que possamos oferecer valor real para artistas emergentes quando eles entrarem.

Malystryx: Quando pessoas lançam companhias, é comum que tenham um plano com alguns anos de antecedência. Dada a velocidade que a LOUD está crescendo, vocês já completaram seus planos? Quais são os objetivos de longo prazo para a LOUD? O que resta para conquistar?

Bruno “Playhard” Bittencourt: Os efeitos de rede que podem sair da comunidade são absurdos. Dadas às oportunidades à frente, é importante puxarmos as alavancas corretas que melhor se correlacionam com a nossa empresa. Uma coisa é certa: para continuarmos crescendo, teremos que aproveitar a tecnologia e os softwares. Até então, temos 3 times separados de desenvolvedores construindo internamente ferramentas que dêem suporte para as necessidades da empresa. Externamente, estamos mergulhando nossos pés em diferentes oportunidades, do jeito que vejo é que este mercado ainda está na sua infância e o nosso principal foco é melhorar o engajamento com nossa comunidade, evoluir nossos talentos e aprender o tanto que for possível. Nossa habilidade em ver em primeira mão o que acontece nesse espaço vai nos permitir abraçar as oportunidades de bilhões de dólares assim que elas surgirem. Imagine o que você pode fazer com um produto sensacional e centenas de milhões de consumidores leais.

Lawrence

Lawrence "Malystryx" Phillips

Director of Content | Twitter: @MalystryxGDS | Twitch: MalyPlays

Malystryx is a content creator, journalist, interviewer, and personality. He has been involved in the esports scene since 2004 and has worked with many different organizers and portals, including SK Gaming, ESL, Dexerto, GINXTV, Razer and Monster Energy. Malystryx was also a broadcast talent on Valve's Dota 2 Pro Circuit over the last few years, creating on-site video content for PGL and Starladder. In his spare time he streams on Twitch as MalyPlays.